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sábado, 20 de junho de 2009

Em Teerão...


«O que podia ter sido é uma abstracção
permanecendo uma possibilidade pepétua
apenas num mundo de especulação.
O que pode ter sido e o que foi
apontam para um fim único, que é sempre presente.

O som de passos ecoa-me na memória
ao longo da passagem que não escolhemos,
em direcção à porta que nunca abrimos
para o jardim das rosas.

As minhas palavras ecoam
assim na tua memória.
mas com que objectivo
levantando a poeira numa taça de rosa,
isso eu não sei». (1)






Existem sociedades que nos parecem cristalizadas num tempo específico, onde se nos afiguram fora de qualquer tranformação da realidade social e cultural. A teocracia iraniana tem nestes dias tumultos importantes. O poder dos ayotollas pode permanecer no futuro, como a única legitimação da vida de milhões de iranianos.

Uma coisa, todavia é já certa. Milhares de pessoas aspiram a jardins novos, onde se luta pela imaginação já não presa em palácios seguros de palavras prisioneiras, mas a que permite contactar com o mundo. Aquele onde as transformações são realizadas e não ditadas por minorias. Aguardemos.

(1) T. S. Elliot, citado de Azar Nafisi, Ler Lolita em Teerão
(Imagens, in http://www. sol.pt)

sábado, 6 de junho de 2009

Livros...

Propostas de leituras sobre o Tema do Nazismo. Tentar compreender o inexplicável, num caminho que foi a Loucura entre os homens, sem nenhum sentido. Diferentes livros para melhor conhecer essa doença do espírito que foi o Nazismo.

Quatro propostas: A Vida Perdida de Eva Braun de Angela Lambert; O Meu Coração Ferido de Martin Doerry e O Paraíso de Hitler de Peter Fogtdal.

Como última proposta uma Biografia de um Homem excepcional que soube representar em si toda uma nação e levar o mundo livre para uma nova esperança, justamente Winston Churchill de François Bédarida. Um político que nas mais profundas dificuldades soube sempre inspirar a confiança nos seus cidadãos.

A Operação Overlord

Lembramos hoje, os sessenta e cinco anos do desembarque nas praias da Normandia, pelas forças aliadas, de modo a pôr fim a um regime que foi a expressão acabada do Mal absoluto, o Nazismo. Operação pensada ao longo de dois anos, para derrubar a muralha do Atlântico, foi dirigida por David Eisenhower e Bernard Montgomery colocou no campo das praias de França cerca de cento e cinquenta e dois mil homens. O custo em vidas humanas foi enorme. Mais de cem mil mortos entre civis, forças aliadas e o lado alemão.

O Presidente americano Barack Obama deslocou-se hoje a este local para relembrar a importância do significado dos que lutaram e perderam a vida nestas praias, como a de Ohama. Ali n
o memorial, marcou a cerimónia com a alerta de como alguns podem mudar o sentido dos dias, no pior sentido, quando a consciência e a humanidade não guiam as suas acções. E disse-nos que outros, homens absolutamente normais, imersos numa valentia imensa, participando numa acção de profundo perigo conseguiram realizar uma acção grandiosa, mudando o futuro da Humanidade e de diversas gerações. O exemplo da dignidade sobre a maldade que, todos hoje precisamos de celebrar, para reconstruir a sua memória no próprio presente, contra o tempo do esquecimento.

O presidente americano deu mais uma vez uma lição de humildade e de grandeza, ao dizer aos líderes europeus que, é possível pela acção de cada pessoa, mudar o que não está de acordo com a nossa humanidade, e sobretudo lutar, acima de qualquer cultura pelo que é digno. O presidente americano vem pela segunda vez à Europa mostrar o caminho.

O caminho de exigir o respeito por todos, árabes e judeus, reconhe
cendo a História e tomando acções pela real defesa daquilo que ele chamou «a nossa humanidade partilhada». Daquelas praias soube abrir uma porta que a Europa não consegue compreender. A União Europeia e alguns dos líderes dos mais importantes Países continuam ao lado deste futuro que Obama lhes propõe. O caminho é novo e diferente. Já não adianta gritar sobre a derrota dos sistemas totalitários. Existe uma novo mundo a construir e com valores diferentes. Desejemos que a Europa os compreenda e queira com a América neles participar.


(Imagem, in Magunphotos.com)

sábado, 25 de abril de 2009

O 25 de Abril de 1974 ... Os Cartazes


(Imagens, in Centro de Documentação
da Universidade de Coimbra)

25 de Abril de 1974 - Os Idealistas ...


Neste dia, todos os anos lembramos os episódios de um golpe militar, os protagonistas que conduziram ao fim do regime cinzento e medíocre que tinha sido o Estado Novo. Neste dia, revemos as imagens de alegria de uma população que se sabia presa a um modelo de sociedade sem presente, nem futuro. Neste dia, alguns pelo menos, gostamos de lembrar os idealistas.

Aqueles que sonharam com a dignidade perdida, não com o pode
r, os que acreditaram que a determinação, espelho da vontade se concilia com o espírito de mudar as condições e os direitos da comunidade de homens. Aqueles que sonharam com ingenuidade na boa vontade, não com o calculismo de obtenção de cargos. Aqueles que pertencem à raça de superior de se saberem ao serviço de um ideal.

Sem ideologia, sem plano, apenas a do serviço a uma cau
sa. Aqueles, muitos poucos, raríssimos que souberam lidar com os Ditadores com delicadeza, porque são por natureza, da dimensão maior do Homem. Executada a função, entregue a liberdade, revelado o seu sorriso, afastaram-se sabendo que a onda que os moveu já não faz parte da espuma violenta que outros tão sabiamente saberão executar.

«O dia inicial e limpo» de que falava Sophia é a sua melhor memória, a de um Homem muito especial, que soube fazer as escolhas corajosas, apenas por isso, pela coragem do Ser.
Neste dia, um agradecimento muito vivo à memória de um Homem muito especial. Chamava-se Salgueiro Maia.




(Imagens, Capitão Salgueiro Maia, in Geocites.com,
Flores do Campo, no Parque Natural de Montesinho)

25 de Abril de 1974 - As Imagens da História







(Imagens, in Centro de Documentação da Universidade de Coimbra, Enciclopedia.com, blogluso-carioca)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

A Crise Académica de 1969

Foi há quarenta anos, em Coimbra, na sua academia universitária. Um grito envolvente, indignado, convicto de estudantes que queriam ter direito a exprimir a sua palavra. Não foram autorizados. Nascia um protesto de uma geração, resultado de uma inflamação profunda de um País doente cercado em si próprio e sem a voz que da periferia do Maio de 68 lhe chegava em imagens isolados de um futuro que parecia aqui não poder existir.

A crise académica de 1969 conduziria ao fim governativo de um ministro que anos mais tarde se estrearia na popularidade dos néons. Estranho o modo como a coerência não é um crédito para a consistência das acções no domínio público deste País. Mais protestos. e greves ocorreriam com a crise académica. Foi o princípio do fim do Salazarismo e a crença de que nos verdes anos nasceria um horizonte novo. Mais um engano.

A Primavera marcelista revelaria ser desprovida de flores e comprovar-nos-ia como homens cultos e inteligentes podem comprometer a dignidades dos seus cidadãos. Preso na hierarquia do Poder, o Marcelismo manteria essa tradição de uma obrigação fútil e sem respeito por uma consciência humana e historicamente digna.

E hoje, que palavras temos? Quais as que podemos usar? Queremos falar ou estamos abandonados ao compromisso velho, sem miragem, nem distância, onde o carácter e a ética são palavras de Museu pouco significante para os vivos. E o que é hoje a Universidade Portuguesa?

De 1969 até 2009 que caminho passou oferecer a Universidade à formação dos jovens? É livre nos seus domínios de saber ou está condicionada a uma tecnocracia economicista de lobbies privados? Está organizada para a exigente criação e transmissão do saber ou é apenas uma locomotiva para a promoção social?

O estado lastimável da Universidade portuguesa em 2009 é o espelho, o mais decepcionante deste fracasso cultural em que a sociedade deste País se tornou. A banalização dos valores e das instituições consagrou uma formação intelectual de valor medíocre. Nos anos sessenta a Universidade era frequentada por uma minoria, oriunda das famílias ricas que se abasteciam o Estado para os cargos executivos. A pouco transparente coesão social era suportada por uma arquitectura de poder autoritária. E hoje?

Temos a palavra, dirão muitos. Quantos se levantam e indignam para a usar? Que significado lhe é dada pelos que ocupam o Poder? Vale o cidadão mais do que o seu voto circunstancial? Conseguiu a Universidade formar com competência para uma sociedade aberta, onde as instituições dependem da existência de mecanismos de justiça e oportunidade? A verdade, por muito que custe admitir, é que a Universidade portuguesa mostra-se incapaz de criar elites, que sejam património de conhecimento onde exista igualdade no acesso e responsabilidade na sua formação.

A Universidade portuguesa não soube evoluir do valor medíocre do Estado Novo, alicerce de uma sociedade fechada para o alargamento disciplinado, consistente e partilhado do conhecimento. Quem a serviu nos órgãos tutelares do Estado nunca compreendeu a sua real dimensão transformadora para o País. As suas essenciais funções dissolveram-se numa classe política que sem conhecimento histórico e rigor de cidadania a conduziu a esta dimensão lamentável.

Quando passam quarenta anos sobre a crise de 1969 é importante deixar aqui, em memória deles e de nós, os que precisamos de falar, um som de sempre. Afinal a História, enquanto disciplina é uma construção de cada geração, e não uma colecção de palavras gastas e bolorentas que alguns representam, ainda que com aparente sucesso.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

É aqui que fica a Europa?

A batalha europeia está no horizonte. Nós cidadãos, tantas vezes consultados para as normas legislativas temos agora uma nova oportunidade. O partido socialista inicia o debate de ideias com um slogan que desconhecíamos. Nós, ou pelo menos alguns são europeus. É uma questão interessante que nos levanta algumas interrogações.
Somos Europeus. Quem? os Portugueses ou só o Partido Socialista? Se a estas praias chegaram os comerciantes de cerâmica grega, as suas moedas e as madeiras do Líbano, não o éramos já há tantos instantes? Se desta costa partimos para o mundo na descoberta de plantas e aromas e a ele devolvemos o conhecimento de Damião de Góis, Duarte Pacheco Pereira ou Pedro Nunes, não o éramos quando tantos povos se limitaram à finitude do espaço continental? Fomos Europeus antes da Europa.
Comerciámos e labutámos no Mediterrâneo, onde pelo azeite e sal arriscámos novos horizontes. Somos Europeus há muito, muito tempo.
No tempo em que se escrevia neste continente sons e cores frias, as das ditaduras que em nome de um futuro desconhecido alguns profetizaram manhãs novas onde nunca acordámos. Já nessa altura éramos europeus, porque sempre tivemos entre nós a razão e a dúvida para nos esclarecermos e sempre houve por aqui a procura de manhãs de luz do mar. Mesmo quando na Europa se esperava em filas de desigualdade não pelas obras de Shakespeare, mas apenas pão e leite, já nessa altura os ideiais de Thomas Jefferson nos conduziam, pelo menos a alguns. Sempre aqui estivemos. E dessa Europa que tantos nos queriam conceder, ela nunca nos interessou.
Que Europa afinal nos propõem? A de um liberalismo capaz de redimir no capital especulativo alguma função social e cultural ou apenas um monopólio dos que já estão instalados, não em convicções, mas nas novas «oportunidades do progresso». Que ideias tem a Europa para as dificuldades que todos sentem? Sabe a Europa e os candiadatos que a querem representar pensar sobre ela, antecipar as suas crises, ou é sempre a soma dos interesses dos mais poderosos.
Que Europa podemos e queremos saber? A das estatísticas, dimensões artificiais da realidade, ou a que tem valores na Saúde, na Educação, na História? A da que em comissões sem valores éticos ratificou a incompetência de gestores e a falência de ricos países ou a das oportunidades construídas? Pode haver História, isto é memória colectiva, sem a usarmos para o presente?
Que valores culturais pretende a Europa desenvolver? Tem mais alguma estratégia que não seja a do contabilista apenas preocupado com a gestão dos seus stocks, ou podemos todos nós ter aqui alguns direitos? Podemos ser pessoas e aspirar à Justiça e ao desenvolvimento da sociedade com respeito por aquilo que é uma Democracia?
São estas as respostas que precisamos para assim podermos concluir que sim, somos Europeus. Com convicção, esclarecimento e sem as premissas de um tempo fugidio onde o cidadão conta realmente e não só para a contabilidade eleitoral.
Desejamos, pois candidatos que não nos digam apenas que somos Europeus. Já o sabíamos, já o somos há muito mais tempo que o senhor candidato imagina. É muito importante que os políticos compreendam que necessitamos de palavras. Palavras verdadeiras, essenciais e com significado prático.


segunda-feira, 6 de abril de 2009

Aristides de Sousa Mendes


Com o atraso de três dias deixamos aqui o reconhecimento a um Homem muito especial de uma têmpera raríssima.

Um homem que ensinou a este País como a nossa única obrigação é com a nossa consciência. Ignorado nos livros de História durante décadas deu-nos a honra de vincular este País a um verdadeiro heroísmo, o de contribuir para a civilização contemporânea de um modo construtivo, mas acima de tudo empenhado com a sua tradição humanista.

Um homem que provou na sua vida o que é a bondade, o que é estar preocupado com os outros, com o seu futuro, com o modo como vivem. Um homem que se preocupou com a vida dos outros e que fez por essa defesa mais do que um País inteiro, num tempo difícil. Quando se recomendava a cautela ele ousou contra os maiores perigos, desafiando os que proibiam, perseguiam e calavam os que queriam ter a possibilidade de dizer uma palavra, a da sua dignidade.

Um homem generoso, cristão de formação, diplomata de profissão salvou milhares de vidas, arriscou na sua consciência a sua própria família ensinando-nos o valor da partilha e da luta por uma convicção. A de se ser honesto, respeitável e sempre com a maior simpatia.


Um homem que revelou nas dificuldades que sofreu, nas humilhações recebidas, mas essencialmente na luta abnegada pelo amor à vida a imensa, a infinita mediocridade de um ser cinzento, Salazar, num Portugal pobre, triste e sem qualquer alma de grandeza.

Chamou-se Aristides de Sousa Mendes. No passado dia três passaram quarenta e cinco anos sobre a sua morte. Aqui fica um livro que relança o seu exemplo num País em que carecem figuras e instituições capazes de honrar a memória do País. Poucas figuras terão sido tão notáveis. São elas que ainda nos dão a grandeza de uma construção histórica que no presente se apresenta tão pobre.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Media e História


Há uma ou duas semanas a Sic apresentou uma mini-série chamada A Vida Privada de Salazar. O projecto apresentava um conjunto de relacionamentos amorosos que Salazar teve na sua vida privada.
Nada no projecto nos faz compreender as causas do comportamento de Salazar. A sucessão dos seus affairs aparecem sem se perceber a importância que cada uma daquelas mulheres realmente tiveram na sua vida pessoal. Mesmo limitando a este domínio a vida de Salazar, a fraqueza é assustadora. A narrativa organiza-se à volta da jornalista francesa, Christine Garnier, que tendo desempenhado um especial encanto em Salazar, não conseguiu chegar tão perto do coração do homem que governava autocraticamente o País, como Carolina Asseca.
Esta e Salazar estiveram noivos, mas não casaram. Não poderiam casar. O casamento teria sido a integração do homem simples, austero na aristocracia da época. Salazar recuou, evidentemente. Recuou pelo medo, pelo peso da aristocracia a que pertencia a família de Carolina, sobretudo pela lógica de manter um Poder Absoluto essencial na mitologia do regime em que o Presidente do Conselho de facto estava há muito casado, com o País. E este é o problema essencial que a série, A Vida Privada de Salazar, não soube compreender.
Não se pode analisar uma figura tão complexa como Salazar com esta separação do homem com o Poder e o modo particular como o organizou.
O Projecto em questão não foi capaz de explicar como é que um homem católico, austero, com uma vida profundamente solitária, manteve um conjunto de casos amorosos que nem os portugueses, nem os mais empenhados no combate político souberam em tempo real.
O Projecto não consegue compreender consistentemente porque Salazar nunca se decidiu pelo casamento e como um ex-seminarista conciliava a sua vida íntima com o pensamento católico. Aqui se concretizava mais uma faceta da sua relação com a Igreja, longe do simplismo com que muitas vezes é apresentado.
Se tivesse chegado a este patamar a série teria feito um serviço público de grande valor, esclareceria os portugueses daquilo que marcou a arquitectura do Salazarismo. As suas máscaras, aquilo que usou para representar a realidade, para reduzir o real ao manto de silêncio, de invisibilidade e que conduziu o País para o que conhecemos. Um Portugal fora de qualquer ideia nova, infantil na alma, imóvel no corpo, incapaz de viver com o resto do Mundo o seu próprio tempo.
Esta falta de inscrição na história, esta ausência de debate de ideias e de informação esclarecida de que a mini-série dá provas é ainda, na sombra, uma das heranças de Salazar. Herança ainda muito presente num País ainda pouco rigoroso, comodista com o seu passado e facilitista nas suas opções de cidadania.
A série nunca vislumbrou a dupla encenação de um homem entre os espaços públicos e privados, ente ele, o herói messiânico e o espectáculo, entre a humildade e o orgulho, entre o engenho e a mediocridade.
Não é pois de espantar que em Portugal seja tão difícil fortificar uma consciência colectiva que compreenda de que modo pode criticamente construir o presente. Nada mais falso do que apresentar Salazar como uma figura simples, com pouca densidade. Mesmo quando o mal parece conduzir os Povos é presiso saber reconhecer as qualidades dos que apostaram em limitar o futuro. Apenas de uma forma pedagógica se pode preparar o futuro.
Existem em Portual muitos historiadores capazes de explicitar estas ideias. Já vão existindo livros que igualmente exploram esta temática. Recomenda-se a sua leitura a quem este tema interessar, em especial, Felícia Cabrita, Os Amores de Salazar, da Esfera dos Livros e Máscaras de Salazar de Fernando Dacosta, da Casa das Letras. O futuro agradecerá vivamente uma melhor compreensão daquilo que nos forma como povo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

História e Cultura - Compreender o Inexplicável II


«As guerras podem ser causadas por indivíduos fracos ou cretinos do ponto de vista moral, mas são combatidas e suportadas por gente muito decente» (1)

Se a cultura é a acumulação de ideias e valores que organizam uma Nação, os padrões civilizacionais de um Povo, a da Alemanha foi na História Contemporânea das mais intensas da Europa. No país de Gothe, Einstein, Beethoven, de Kurt Weill o património acumulado nas artes, no pensamento, era simbólico para a cultura europeia. Neste sentido como explicamos essa doença maligna em que o espírito humano se quebrou perante os mais nefastos fantasmas, o Nazismo.
Aquele foi o regime onde se assistiu à maior regressão da história humana. O Nazismo foi a confirmação de uma sociedade sem princípios racionais, assente nos mais nefastos instintos, o culto irracional pelo ódio e pela morte. Foi a consagração de uma religião incompreensível da loucura, onde a perda da vida uma etapa banal na conquista do poder e da glória.
E no entanto, foi um regime com assinaláveis vagas de popularidade. Antes dos fantasmas emergirem da noite para a mais clara luz, o Fuhrer chegou a ser considerado janota e vedeta. De aparência em aparência o regime conquistou adeptos. A verdade difícil, cruel, trágica é que milhões de alemães acreditaram na causa nazi e muitos, demasiados jovens morreram pelo seu Fuhrer. Houve opositores ao regime nazi? Sim, mas proporcionalmente foram poucos. Como explicar este dilema?
Todas as respostas serão insuficientes, ingratas, insatisfatórias, incompletas de sentido para explicar a emergência do Mal absoluto. As condições do tratado de Versalhes, a crise económica e social, o desemprego, a inflação, a crise monetária, a derrota alemã em 1918, a psicologia teutónica tudo é pouco para justificar esta contradição.
É esta enigmática e cruel realidade que o Ciclo de Cinema do CCB pretende reflectir. É uma oprtunidade para analisar a genialidade do mal. Custa admiti-lo, mas o Mal também pode ser servido por génios. A História como disciplina ignora muitas vezes o papel do indivíduo, integrando-o em grandes movimentos. Este é um caso em que um indivíduo servido por ideologia irreconhecível, uma máquina de propaganda, condições históricas particulares e uma psicolgia e filosofias únicas soube criar a maldade extrema na sociedade humana.
É fundamental perceber isto. É decisivo compreender como a cultura e a história se relacionam e como o discurso da cultura muitas vezes já o é ao serviço de ideologias transformando-se apenas em propaganda. Aqui se compreende como a História como disciplina oferece possibilidades formativas para que a sociedade evolua em todos os sentidos, naquilo que é a dignidade humana.
A História não se repete nas formas, mas pode voltar noutras condições oferecer uma igual falta de dignidade para a Humanidade. Só discutindo o mal se pode estar atento e prepa
rado. É essa uma das funções do Ciclo do CCB que aqui relembramos pela sua importância.

(1) Testemunho de pilloto da Luftwaffe,
citado em A Vida Perdida de Eva Braun

História e Cultura - Compreender o Inexplicável I


O Centro Cultural de Belém, em Lisboa, organiza esta semana um ciclo de cinema com o Tema Nazismo e Cultura: Confrontações. O Ciclo iniciou-se dia nove com o Filme de Alain Resnais, A Noite e o Nevoeiro onde as imagens de uma câmara de filmar projectam o fundo trágico do local onde a humanidade perdeu a sua dignidade, os campos de extermínio nazis. O Ciclo prossegue hoje com o fime o Ovo da Serpente de Ingmar Bergman, onde se procura visualizar a origem desse mal e o modo como os fantasmas emergiram da noite para a luz. O ciclo prossegue no dia onze com a projecção do filme A Saudade de Veronika Voss de Rainer Werner Fassbinder onde se apresentam as memórias do nazismo. No dia treze é apresentado o filme A Vida Maravilhosa e Horrível de Leni Riefenstahl. Trata-se de um documento muito interessante para compreender como o cinema e a arte podem estar ao serviço da propaganda que condicionou milhões nas suas vontades e opções de vida. Finalmente no dia catorze, ainda de Leni Riefenstahl o filme Triunfo da Vontade, onde se filma todo o aparato de condução das massas nos comícios do partido Nazi em Nuremberga. Apresar de trágico, é um filme que nos mostra como o cinema pode criar líderes e influenciar multidões e como ele pode funcionar como documento da História e criador de ideologias.
No dia catorze António Mega Ferreira encerrará um conjunto de conferências onde se analisou de que modo os intelectuais e a cultura se relacionaram com esta mal absoluto que foi o nazismo. Para mais informações, ou para ver sinpses dos filmes e respectivos trailers clica aqui.